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PPGSF/RENASF e LARIISA Saúde Digital promovem seminário internacional sobre desigualdades e inclusão digital na saúde

Realizado na Fiocruz Ceará, encontro reuniu pesquisadores do Brasil e de Portugal para discutir os determinantes sociais e digitais da saúde, os desafios do acesso às tecnologias e a cooperação científica internacional.

A expansão das tecnologias digitais tem transformado a maneira como a população acessa informações, serviços e cuidados de saúde. No entanto, os avanços também trazem um desafio: garantir que essas ferramentas sejam acessíveis a todos, especialmente às populações que enfrentam desigualdades sociais e dificuldades no uso das tecnologias. Essa discussão esteve como pauta do Seminário Internacional Determinantes Sociais e Letramento em Saúde Digital: Ciência, Tecnologia e Cooperação Internacional a Serviço da Saúde, realizado no dia 14 de julho, na Fiocruz Ceará, no município de Eusébio, Região Metropolitana de Fortaleza.

Organizado pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde da Família (PPGSF/RENASF) e pelo LARIISA Saúde Digital, o encontro reuniu pesquisadores, docentes, estudantes, gestores e profissionais da saúde, com participação presencial e remota. A programação promoveu o intercâmbio científico entre Brasil e Portugal, reunindo diferentes perspectivas sobre como fatores sociais, econômicos, territoriais e tecnológicos influenciam as condições de saúde da população e o acesso aos serviços.

Um dos principais debates foi a necessidade de compreender que as desigualdades em saúde não estão relacionadas apenas à disponibilidade de atendimento médico. Condições de moradia, renda, escolaridade, trabalho e ambiente também interferem diretamente no processo de adoecimento e nas possibilidades de prevenção e cuidado. Com a crescente digitalização dos serviços, fatores como acesso à internet, disponibilidade de equipamentos e capacidade de utilizar plataformas digitais passaram a integrar essa discussão.

Na conferência sobre determinantes sociais e digitais em saúde, o professor Gonçalo Alves de Sousa Santinha, da Universidade de Aveiro, em Portugal, apresentou uma reflexão sobre a influência das condições sociais e ambientais na saúde das populações. A partir de experiências internacionais, demonstrou como decisões tomadas em diferentes setores, como planejamento urbano, alimentação e meio ambiente, podem produzir efeitos duradouros sobre a qualidade de vida e os indicadores de saúde.

Entre os exemplos apresentados, destacou o projeto desenvolvido na região da Carélia do Norte, na Finlândia, que mobilizou comunidades, produtores e instituições para modificar hábitos alimentares e reduzir fatores de risco associados às doenças cardiovasculares. A experiência evidenciou a importância de políticas integradas, capazes de atuar sobre as condições que influenciam a saúde, para além das ações individuais de prevenção.

A apresentação também abordou a persistência das desigualdades sociais mesmo em países com sistemas de proteção consolidados. Ao mencionar pesquisas realizadas na Suécia, Santinha mostrou como diferenças de renda continuam associadas a disparidades expressivas na expectativa de vida. A reflexão reforçou a necessidade de incorporar os determinantes sociais e digitais ao planejamento de políticas públicas voltadas à equidade.

Letramento digital e os desafios do acesso ao cuidado

A discussão sobre quem consegue acompanhar a transformação digital dos serviços de saúde ganhou destaque nas apresentações. O coordenador do LARIISA Saúde Digital e de Inovação, Produção e Empreendedorismo da Fiocruz Ceará, Luiz Odorico Monteiro de Andrade, chamou a atenção para o risco de que a incorporação de novas tecnologias reproduza desigualdades já existentes na sociedade.

Em sua exposição, Odorico destacou que a disponibilidade de internet não significa, necessariamente, acesso efetivo aos serviços digitais de saúde. Para utilizar aplicativos, consultar informações médicas, realizar agendamentos ou acompanhar tratamentos, a população também precisa dispor de equipamentos adequados e desenvolver habilidades para compreender e utilizar essas ferramentas com autonomia.

O pesquisador apresentou o letramento em saúde digital como uma competência que envolve não apenas o uso de dispositivos e plataformas, mas também a capacidade de buscar informações confiáveis, avaliar conteúdos e tomar decisões sobre a própria saúde. Nesse contexto, ressaltou a importância de desenvolver soluções tecnológicas com linguagem acessível, diferentes formas de interação e participação dos próprios usuários no processo de criação.

Como exemplos de iniciativas voltadas à aproximação entre tecnologia e cuidado, apresentou as plataformas conversacionais Zelo, direcionada ao acompanhamento de condições crônicas, e Jordana, voltada à saúde da mulher, com aplicações relacionadas ao pré-natal e ao puerpério. As experiências ilustram possibilidades de utilização de ferramentas digitais associadas à comunicação acessível e à mediação dos profissionais de saúde.

A importância de considerar as necessidades reais dos usuários também foi abordada pela pesquisadora Cláudia Pernencar, do Politécnico de Leiria, em Portugal. Em sua apresentação, ela discutiu a relação entre os determinantes sociais e a literacia digital, destacando como características individuais, condições socioeconômicas e experiências de utilização das tecnologias precisam ser consideradas no desenvolvimento de plataformas e serviços.

A pesquisadora apresentou a evolução dos estudos sobre interação humano-computador e experiência do usuário, ressaltando a importância de metodologias centradas nas pessoas. Também trouxe dados sobre competências digitais em Portugal e na União Europeia, demonstrando que a capacidade de utilizar tecnologias varia conforme fatores como idade, escolaridade e condição perante o trabalho.

Sua contribuição reforçou que a transformação digital não deve se limitar à disponibilização de sistemas e aplicativos, mas precisa considerar a diversidade de habilidades, necessidades e condições de acesso da população. Nesse processo, a pesquisa com usuários e o desenvolvimento participativo de soluções são fundamentais para evitar que novas ferramentas se tornem obstáculos ao cuidado.

Pesquisa no Ceará investiga letramento digital de gestantes

Entre as experiências brasileiras apresentadas, a pesquisadora Ivana Cristina Barreto, da Fiocruz Ceará, compartilhou resultados de um estudo sobre letramento em saúde digital de gestantes atendidas pela Estratégia Saúde da Família em municípios cearenses.

A pesquisa envolveu 209 participantes de Fortaleza, Aquiraz, Banabuiú e Arneiroz e investigou a relação entre condições sociais e a capacidade de utilizar informações e recursos digitais relacionados à saúde.

Os resultados apresentados identificaram associações entre o letramento em saúde digital e variáveis como renda, escolaridade, religião e município de residência. A análise também apontou que famílias de menor renda enfrentam barreiras relacionadas à disponibilidade de recursos tecnológicos, à estabilidade da conexão e às oportunidades de aprendizagem digital.

Um dos aspectos destacados foi que, na amostra estudada, não foi identificada associação entre o simples acesso à internet ou a equipamentos eletrônicos e o nível de letramento em saúde digital. O achado reforça que a inclusão digital envolve dimensões que ultrapassam a conectividade, exigindo também competências para localizar, compreender, avaliar e utilizar informações de saúde.

A apresentação apontou ainda os próximos passos da pesquisa, entre eles a devolutiva dos resultados aos municípios participantes, a realização de oficinas de letramento em saúde digital voltadas especialmente aos grupos mais vulneráveis e o aprofundamento dos estudos com usuários do SUS que convivem com hipertensão e diabetes.

Cooperação internacional para uma saúde digital mais inclusiva

Além das discussões científicas, o seminário destacou a importância de fortalecer redes de pesquisa e cooperação entre instituições brasileiras e portuguesas. A aproximação busca contribuir para o desenvolvimento de estudos sobre letramento digital, equidade e transformação dos serviços de saúde, considerando as particularidades sociais e territoriais dos dois países.

Entre as possibilidades apresentadas estão a realização de pesquisas conjuntas, a mobilidade acadêmica de pesquisadores e estudantes de pós-graduação, a produção de publicações científicas e a participação em editais internacionais de financiamento.

O seminário foi organizado pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde da Família (PPGSF/RENASF) e pelo LARIISA Saúde Digital, com apoio do GOVCOPP – Unidade de Investigação em Governança, Competitividade e Políticas Públicas da Universidade de Aveiro (Portugal) e da Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha (ESAD.CR), do Politécnico de Leiria (Portugal).